quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sobre amor e mesas

Adélia Prado escreveu uma vez que a salvação opera nos abismos, eu diria mais: opera também nos detalhes!
São os detalhes, as pequenas coisas, pequenos acontecimentos que possuem o poder de nos revelar, a nós mesmos, inclusive e principalmente.
Acontecimentos aparentemente banais: sentar-se à mesa na casa do namorado, perder um tênis na casa da avó, um café numa tarde ensolarada...
Nada disso ocupa nossa lista de problemas ou de prioridades, exceto quando despertam em nós convulsões ancestrais.
Pequenezas que escondem abismos. Não do tipo em que caímos nos pesadelos, do tipo de abismos que escondem mistérios só revelados apenas aos que gritam diante dele: ‘Não tenho medo de você!’
Os sentidos sociais se constroem na relação, ou na interação, como diriam alguns sociólogos, mas o sentido simbólico se constrói nos detalhes, no susto, no lapso da consciência, na dor, sobretudo na dor.
Aí tudo ganha outras proporções e significados: perder o sapato é também se perder, não apenas não saber pra onde ou como ir, é não saber quem a gente é. Do mesmo modo, mas diferente, sentar à mesa é se achar, se encontrar, encontrar seu lugar no mundo.
Se perder ou se achar não são opostos, contrários, são jeitos particulares de gritar ao abismo:
‘NÃO TEMOS MEDO DE VOCÊ!’
(Mesmo que doa...)

ps.: nunca pensei que acharia linda uma história sobre mesas, ou melhor, nunca pensei que uma mesa pudesse ser um dos presentes mais lindos do mundo.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Tempo descalculado

Escovar os dentes com pressa, não faz espuma na boca. Acordar atrasada em dia de sol, mesmo com frio, irrita. Principalmente se você vai para o trabalho, e não caminhar – calmamente – até a padaria pra tomar um suco, de desjejum, com o pão tostado e manteiga. E a pressa, como Murphy, me persegue: a dúvida de que cor acordei hoje para vestir. Jeans denuncia minha bunda, penso alto. “É disso que a gente gosta”, grita o irmão mais velho, do corredor. Piada velha tem graça de tão velha que é, mas eu não tô com tempo pra rir. Não consegui ir na depilação essa semana, den ovo, e ainda me sinto presa a essa ditadura da mulher limpa, linda, que é a sem pêlos. Nasci com pêlos, porra! Pego aquela calça de alfaiataria, marinho, que achei na estante da liquidação daquela loja ontem, linda e num preço quase justo, quando esperava o João pro cinema. Fita crepe é a melhor amiga nessas horas: bainha improvisada mas perfeita. Correr pra pegar ônibus é a humilhação que a prefeitura faz com a gente. Bastava eles aumentarem o número de transporte dessa linha. E as pessoas estão ali, com cara de leite azedo. Contudo, acabam votando de novo no prefeito bonitinho. Nem o paquera tava no ponto. Claro, ele não se atrasa! Olha pra cima, olha pro relógio, olha pra rua, olha pra cima, olha pra rua, olha pro relógio. Guarda o relógio na bolsa, atrasada está e ponto. Respira fundo. Lembrei da piada que a Ana contou ontem. Começo a rir e alguns me olham diagnosticando insanidade. Tolos, penso eu. Humor é alimento pra alma, ou conforto pro atraso. Como se não bastasse o atraso, a multidão socada naquela lata. A vantagem da baixa estatura é permear as pessoas mal humoradas, que não se permitem um ato sequer de solidariedade ao coletivo, que ficam estáticas compondo uma suposta paisagem bucólica. Meu trunfo é que a viagem é curta. Acordar atrasada é como assoprar a centopéia de baralho, você desordena seus minutos calculados. O elevador do prédio do escritório acabou de subir. Era o diretor geral. Portanto, vai até o último andar. A escada, não dá, a moça interditou para lavar. Cedo, de manhã. Inverno, e vai lavar uma escada interna! Sem luvas de borracha. O que é pior: mandaram-na fazer, ela nunca poderia questionar. Um desperdício de água, além da sacanagem com a moça. Cadê o meu relógio?!A bolsa tá uma bagunça…oba!Um bombom, que o Pedro me deu. Acho estou com sorte hoje! Foi naquele domingo… Eu já tinha até esquecido. Do Pedro, claro.