segunda-feira, 31 de maio de 2010

Corredor



Não consegui,
perdi tudo.
Alegria, imaginação,
vontade, inspiração,
tesão.

Perdi-me em seus cabelos e
cheiros.

A folha branca me espera sedenta
de letras, de tinta.
De mim mesma, que perdi.

Perdi n´algum lugar,
que não seus cabelos
tampouco cheiro.

Fui passear no vácuo,
pedaços espalhados.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ZeroQuatroUm

O conteúdo da caixa de correspondência no início de cada mês é sempre a mesmo e óbvia dupla: contas e propagandas. As vezes, no meio de algum aleatório mês, vem carta de amiga distante ou cartão postal daqueles que viajam nas férias e nos levam no peito, ou mais propagandas de estabelecimentos novos da região. Mais do mesmo: novos cafés, almoço em buffet por Kg, e coisas do tipo.
Hoje, fim do mês, veio a conta daquela outra operadora de telefonia, que usei no mês anterior. E que eu já nem lembrava. Quarenta e sete reais e trinta e dois centavos! Esse foi o preço que aqueles dois dígitos, os vulgares “xx” que você precisa discar antes do DDD seguido de número de telefone, me cobraram pela coragem que tive em resolver um terço da minha vida, ou melhor, a terça parte do pacotinho de pedras que carregamos sem lembrar quando foi que começamos com isso.
Naquela noite, em que fiz esse pequeno estrago nos minutos da conta telefônica, a leveza foi tamanha após o “Boa noite, tchau.”, que parecia aquele fôlego que a gente reforça em noite de ano novo ou antes de assoprar velinhas de aniversário pensando: “pronto um já foi, tô livre!” Que venha o que vier, seja o que vier, disse o mineiro, aquele. Era uma história passada que queria estar em voga: olha a contradição!
A prática do desapego é desafiadora, dá medo e depois te faz sorrir até para desconhecidos transeuntes nas calçadas de um centro urbano. Só sabe como é quem faz. É como quando você passa dias vendo que naquele canto “ali, ó,” aquela coisa (ou um objeto qualquer) “tá vendo?” “Tá sujo!”. Olha mais uns dias e pensa: “xi, já tá encardido!” Olha meses ou anos depois e pensa: “ai que preguiça!” E então conclui: “vou passar isso pra frente”. Mas olha bem e pensa: “mas sujo assim, é sacanagem com o próximo”. E então, começa a olhar e ameaçar: “a tua hora tá vindo” e chega um dia, que, você já cansado de olhar e saber que a hora já passou, e estar grisalho em saber que está sujo, que você pega a coisa e diz “vem aqui, agora eu vou limpar, até parecer que nem foi usado”. Esfrega, lixa, lava.
A duração, marcada em tempo real por 01:12:58H em uma noite fria e úmida, foi o tempo necessário para uma tarefa que aparentemente parecia tão chata ou penosa em fazer. Depois, você comemora sozinho,se orgulha da tarefa em silêncio e, com um banho quente, lembra que Belchior tem razão, naquela música velha roupa colorida.
Esse foi o tempo que eu precisei para liberar o excesso de peso, e lembremos que excesso é o desnecessário, daquela sacolinha miúda que cabe hoje no bolso de isqueiro da calça jeans.
Nunca paguei uma conta tão animada, mesmo sendo cara, fiz questão de pagar no caixa do banco, só pra sorrir pra mais uma pessoa desconhecida.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Cacos para um vitral...

Um parenteses no tempo...


Tomei um café e ganhei um presente...


Caí de moto e ganhei uma festa... (A salvação opera nos abismos)


Saí da aula e tomei uma bolada...


Aprender era quase um orgasmo, agora sei.

sábado, 22 de maio de 2010

O gelo bóia

Fazer da vida listas - como as de mercado ou viagem - exige criatividade e disciplina. Recortar manjericão. Copiar o CD pra ele. Não esquecer de pagar o condomínio. Telefonar para a Lu. Fazer a lista do mercado. Em meio a essa liquidez, o cubo de gelo bóia, solitário no copo.
São tempos dissonantes...Meus amores não vividos. As paixões cegas em tempo escasso: a não prioridade e o trânsito maldito. As amizades passadas. Roupas velhas e confortáveis. Comidas vencidas jogadas fora com pesar. Passado ressurgindo para limpar o canto da sala. Guarde o retrato com mais cuidado, não seja insensível!
Reviver a música com os olhos fechados ao chorar de alegria. Alívio comum. Acordar sorrindo. Leveza de Ser. Nuvens gordas. Sorrisos inéditos. Já reparou que nos momentos domésticos de limpeza, como lavar a louça ou tomar banho, é que podemos ter grandes insights em resposta a dúvidas mínimas? Aconteceu comigo outro dia e acabei por verbalizar mentalmente meus proto-sentimentos (embriões com fase interrompida) em relação a ele, e assim ficou estruturado:

“Caro filósofo,
A vontade é de continuar a conversa, não fosse a ordem de silêncio.
Em respeito às regras, me permito a escrita, conversa estática.
A liquidez perdeu sua mobilidade. Fluir nem sempre foi bom, principalmente quando desnecessário.
Na incerteza, permanece onde está para posteriormente olhar para os lados corajosamente. Abrir os olhos com vontade é diferente de quando lhe abrem - às pressas- a cortina do quarto de dormir”

Cômico, resolvi rir de mim mesma. Convido lhe a rir junto da capacidade humana em meio a um processo banal de lavar uma panela cheia de gordura do almoço de hoje. Amanhã vou almoçar fora com as meninas, aí a gente ri do outros.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Lista de absurdos (aberta à complementações)

- cantar o hino nacional toda semana na escola
e o teu futuro espelha essa grandeza...tão de brincadeira né?!);
- Dizer, depois de vinte anos de casada que prefere uma barra de chocolate ao marido;
- Seu 'parceiro' decidir que você não está feliz com ele...;
- Jogar sudoku durante a melhor aula de todos os tempos...;
- Responder 'sim, tudo bem', quando perguntam 'Tudo bem?' (a quem queremos enganar?!)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Coffea canephora

Acordei no susto. Como quem acha que tinha sido só uma piscada, dormi por 32 minutos. Eram 11:42 no relógio. Além desse susto, havia um ser deitado ao meu lado. Um corpo lisinho, definitivamente era ele um varão. Com textura aveludada, pelos claros e finos pelo corpo. Nu. Virado com as costas para mim, com sua bunda durinha, redonda. Perfeita. Parecia que dormia. Chamei pelo nome, em voz quase nula, mas resolvi deixá-lo ali por mais um instante, exposto em meu quarto. Como uma escultura grega.

Sexo. O melhor dos motivos para se dormir tranquilamente. Madrugada de trocas. Energias. Fluidos. Sensações compartilhadas e imaginações explicitadas. Gargalhadas cruéis. Manhã de orgasmos. Visuais, mentais, físicos. Tudo.

Foi com um olhar a distância, em um ambiente movimentado, mas agradável, que o álcool me facilitou. Sim, não sou hipócrita. Eu gosto da sensação do meu sorriso se abrindo antes de mim mesma. Então, o Universo veio, trouxe ele para meu campo de visão, e, ao mesmo tempo, percebida, fui devorada. Olhar intenso sobre mim. Sorri do outro lado, para cumprimentá-lo. Um quase-desconhecido, era charmoso, não era o álcool, o vi antes disso. Um amigo em comum. Ele me despiu em pensamento. Só de sentir o jeito com que me abraçava, forte e decidido, enquanto dançávamos, me fez sorrir em pensamento. Subiu um arrepio pela espinha, de baixo até a nuca. Disfarcei e sorri pra ele.

E cá estou, na cozinha, fazendo um café amargo, depois de uma alvorada agridoce. Nem o primeiro, nem o último. Sempre gostei dessas coisas assim, que acontecem de repente e que, mesmo assim, conseguem ser bem feitas. Ele começou por me olhar, e acabou por me fazer ficar fora do ar, em alto e bom som e depois, num sorriso-silêncio. Multiplicidade no formato. Sentia minha pele como

a mais cheirosa e saborosa do mundo. Havia fome, que fora saciada aos poucos, com devoção e silêncio. Uma rainha, uma deusa. Uma Mulher, simplesmente. Um cara, ali, ao meu dispor, inteiro e firme, por mim, para mim e comigo. Tudo ao mesmo tempo. Todos num só. Maravilhas de um instante. Abraçou-me. Beijo na testa e partiu.

Café amargo a chocolate, minha escolha foi feita esta tarde na qual escrevo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Papo de Banheiro

Sabe por que quero isso?
PORQUE NUNCA FUI AMADA
Como uma sentença, a afirmação não permitia sequer contestação. Nem mesmo o tradicional: ‘calma, você está sendo drástica, não é bem assim... ’
Ela dizia: quero um namorado, um companheiro pra me sentir amada, porque nunca tive isso. Sem titubear, ou mesmo embargar a voz, com uma consciência e lucidez incômodas.
Afirmações como essa, enfáticas, desconcertantes, nos fazem olhar para nossas próprias trajetórias com uma pergunta igualmente incômoda: e nós, será que fomos amados?
Ela se perguntava ainda se uma infância preenchida com rejeições, bulling, falta de cuidados permitiria que essa órfã afetiva conseguisse construir uma família ‘Doriana’, uma vez que nunca teve uma?
Qualquer resposta, pronta ou inventada, talvez não passasse de uma tentativa de auto justificativa.
'Sim, veja onde chegamos... fizemos o melhor que pudemos...'
Quase pra nos convencer de que é isso mesmo. Quase como um pedido de socorro...
Quase como um pedido pra não pensar mais nisso...
‘No piense más, no piense más...’ (Filme: O segredo dos seus olhos)
Com o mundo cada vez mais desencantado... preenchendo vazio com mais vazio.
São demais os perigos desta vida... (Vinícius)
Viver é muito perigoso... (Guimarães Rosa)

Tudo pode acontecer em um conselho de classe

Como diz o Chico ‘tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...’ quando o dia começa assim já deveríamos estar preparados. Nunca estamos. Fora a melancolia, velha amiga que nos visita esporadicamente, nos dias de hoje é proibido sofrer, ta fora de moda, então seguimos fazendo coisas, correndo sabe Deus pra onde.
Esse papo sobre melancolia e dias que começam estranhos é pra narrar uma história que não fosse triste seria cômica, ou melhor, é um pouco cômica porque um tanto triste.
O fato que segue ocorreu numa escola, uma escola qualquer, típica. Aliás, a idéia de fatos típicos, comportamentos típicos é importante pra essa história. As aulas foram suspensas pra que se realizasse o famigerado Conselho de Classe. Ritual no qual professores frustrados, mal pagos e sem vida social (e sexual) expurgam suas dores, culpas e mediocridades. Uma espécie de catarse coletiva. Enfim, um mal necessário, não se sabe exatamente pra quem, mas necessário.
Tudo dentro do padrão. Seria mais um Conselho típico não fosse o fato desta que vos relata resolver navegar enquanto esperava o início da ‘terapia de grupo’. Mesmo o mundo virtual e suas inúmeras possibilidades não nos livram da monotonia, boa parte das notícias e novidades do momento tem qualquer coisa de requentadas. Isto posto recorremos aos meios virtuais para ‘rever’ os amigos. É aqui que entra uma das maldições da modernidade: as redes de relacionamento.
Já adianto: começa a se consolidar em mim certo ódio por essas redes. Sabe aquele namoro firme, cheio de recadinhos carinhosos e melados? De repente descobre-se que se está namorando sozinha, já tem uma baranga qualquer deixando os mesmos recadinhos... e o que torna tudo odioso é que todo mundo já está sabendo, menos você, é claro.
Não bastando a primeira lição sobre redes de relacionamento a gente insiste, acha que agora aprendeu e que não cai mais nessa... Ingênuos todos!!!
Tratando-se de redes abertas podemos ver e ser vistos por todos. No dia em questão fui ‘visitada’ por alguém sob o pseudônimo ‘guiiii’, fato insignificante até perceber que a pessoa com quem achava que tinha um relacionamento estar se correspondendo com a tal ‘guiiii’.
Qual não é minha surpresa, pra não dizer choque, ao ver os recados deixados ao jovem mancebo em questão: ‘oi amor’!!! Oi amor? Amor? Como assim? Nunca nos chamamos de ‘amor’...
e como já cantou Maysa ‘meu mundo caiu’...
Ligo enlouquecidamente para o objeto de amor da ‘guiiii’, a essa altura já tinha certeza que se tratava de uma mulher (rsrs). Lógico, sem ser atendida. Lanço mão de outro recurso tecnológico as tais mensagens sms, direta, reta e enfurecida: ‘duas perguntas: por que não me atende e quem é guiii’.
Sem resposta, naturalmente.
Detalhe: o conselho de classe rolando solto!!! O aluno tal? Ahn? Quem? Notas? Ah...Quero justificar de antemão meu apreço pela educação, em condições normais de temperatura e pressão estaria acompanhando atentamente o desabafo de cada um de meus colegas de magistério.
Eis que algum tempo depois o jovem, aquele que não atendeu as ligações tampouco respondeu à mensagem, acessa outra rede de relacionamentos (outra daquelas que começo a nutrir senão ódio no mínimo antipatia).
Oi (ele)
Oi
(silencio)
Tudo bem (eu)
Mais ou menos...
(silêncio... e quase nenhuma dúvida do que estava por vir)
O que está mais ou menos?
Tudo.
(ninguém merece, o mundo caindo e a pessoa dando respostas genéricas ou evasivas)
Queria te pedir desculpas.
(já recebi uma carta assim... ‘nunca vou me desculpar pelo que estou fazendo...’, ou seja, se restava alguma dúvida estava totalmente sanada)
Pelo que? (só pra confirmar!!!)
Queria terminar.
(ódio, fúria, tristeza e mais raiva: Por que esse FDP não falou?)
E o conselho de classe rolando
Os diálogos que se seguiram alternaram-se entre cobranças, parcas explicações e uma dúvida: o que está havendo com os homens? Onde foram parar os corajosos, decididos, bem resolvidos e honestos?
Clamo aqui pelos honestos não evocando arremedos de fidelidade, todos temos direito de mudar de opinião, de gostos, mas me refiro aos honestos com culhões, como diz um novo amigo. Aqueles com hombridade de dizer PESSOALMENTE o que querem e principalmente o que não querem.
Enfim, um dia melancólico, um Conselho de Classe típico e mais um fim virtual para a coleção.
E a pergunta, é claro: oi tem alguém aí?
Se tiver, por favor, não deixe um ‘scrap’, não mande email muito menos sms...
A delicadeza agradece.

Alguém cansado... (não só das tecnologias que afastam mais que aproximam)

Filandras

Assim como no livro de Adélia Prado no qual nos inspiramos para nomear este blog as histórias contadas aqui, assim como as de lá, não são estanques, isoladas. Podem, evidentemente ser lidas separadamente, afinal as pessoas que as inspiraram são únicas, irrepetíveis.
No entando, ao unirmos os fios, os detalhes que ligam umas às outras, perceberemos mais que um quebra cabeças de desabafos. Perceberemos a teia que nos liga a cada pergunta que fazemos...será que é isso mesmo que é viver? será que poderia ter sido diferente? será que ainda pode ser diferente?
Mais que uma espaço necessário para nossos desabafos cotidianos, este é um espaço para os que 'pressentiram que a manhã começou' (Adélia Prado, Poesia Reunida, 1991)
Bem Vind@s!!!