terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dança da areia



E o que é que a gente faz com essa saudade toda?

Deixa numa ilha. São as ilhas responsáveis pelo Tempo quando este está enfermo.
Ela encontrará com suas memórias, e farão as pazes.

Assim como as andorinhas se encontram no verão.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Moeda estrangeira ou Embarque imediato



Foi em uma quinta feira chuvosa que ele se despediu de mim como uma mala que se perde em conexões internacionais. Algo corriqueiro, mas a gente nunca espera que isso aconteça conosco.
Ninguém nunca está preparado para levar um fora de uma maneira tão bonita, tão perfeita. Você então me pergunta: “um fora bonito? Perfeito? E logo conclui: não existe!”
Estava em uma felicidade que não cabia em mim, fui aprovada para a melhor companhia de dança da cidade e estava louca para contar para ele. Combinamos uns minutos de sobremesa, era o jeito que dava em meio a rotinas de horários tão justos. Nossas sobremesas eram sempre doces, mas os dias em que comíamos as ácidas, seguidas de chocolate bem doce, me eram favoritos.
Aquela quinta que me referia não teve minutos. Foram frações mínimas do tempo, mas chamo de segundos, para que lhes façam algum sentido. Ele me abraçou. Um abraço quente, mais confortável do que nunca e eu me aninhei, como um filhote de animal qualquer com frio, em seus braços.
Eu não pude acreditar de pronto no que me dizia, mesmo tudo aquilo fazendo sentido. É como quando a realidade fica suspensa. Derrete e as pessoas ficam aromáticas. Hesitei, mas não tinha escolha, o embarque, era imediato. Parti. Olhei pra trás, tropecei logo em frente. Mas embarquei.
Sem malas, cá estou a viver de estórias.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Banho de chuva



Acordava com uma alegria que não lhe cabia,
mal sabia que um golpe previsto chegaria adiantado.
E a Tempestade, condenou-lhe: tísico.

sábado, 11 de setembro de 2010

IML

Pistola Automática. Tiro certeiro. Pelo menos morreu rapidamente, gritou João. Eu o olhei com mais atenção, expressão de serenidade. Há muito não achava alguém assim proveniente de homicídio. Há muito não dava atenção pra minha sensibilidade. Tinha um rosto desenhado, cílios grandes. Bonitão, ri sozinha. Meus colegas não entenderam nada, pra variar.
Aquele homem em órbita nos pensamentos. Meu objeto de trabalho virou personagem em instantes de um momento juvenil, queria tê-lo em vida para uma conversa ou algo assim. Férias vencidas, preciso delas. Agora. E voltava a idéia de que o tempo podia ter sido generoso comigo, podia ter me esperado. Lembrei-me de um enigmático vizinho que um dia me convencera de que o tempo está parado. Desisto em pensar nisso.Vou pra Malásia, eu mereço.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Fraqueza da promessa

Senti-me traída. O passar de anos lavou-me os sentimentos que junto da traição nos desgastam: raiva, ódio, ciúme, incerteza, saudade, nojo.
Quantidade de tempo. Um (re)encontro descabido. Um café no intervalo entre uma conexão e outra, uma coincidência no aeroporto. Desnecessária: recordei as agonias. Xícara vazia, a melhor fuga: a justa hora de partir. E nunca mais. Tampouco ressentimentos, já inexistentes. A indiferença me é orgânica. Minha saúde é de ferro.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O homem que tinha medo

Era uma vez um homem que tinha medo.
De muitas coisas, algumas reais outras nem tanto.
Ele tinha medo de ter medo.

Tamanho era o medo que tudo foi perdendo o encanto.
Do passado ou do futuro, tanto fazia,
Repetir um no outro, se desprender de um pra outro...
O que sabia é que no presente tudo era medo.

E ficava assim, suspenso, vagando entre o medo do velho e do novo.
Tinha medo de perder.
Perder o que mesmo?
Se perder talvez?!
E perdeu tanto tempo com seu próprio medo
Que nem se deu conta do que perdia...