domingo, 11 de agosto de 2013

Medo da morte

Só agora consegui tempo pra chorar. Mentira. Só agora arranjei a dose necessária de coragem. Sim, é preciso uma dose generosa de coragem pra chorar de medo (nada de colher rasa!). Não o medo das palavras não ditas, dos abraços não dados. Não, aqui o amor passa por outras pontes... Talvez o medo das tragédias cíclicas, velhas conhecidas que somos, sempre em bando, sempre implacáveis. O não-se-confirmarem deixou alívio, e também uma dor aguda no peito como um lembrete. O que dizer sobre nós? Sobrevivemos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Malandro não pára, dá um tempo

O fervor juvenil procurando um sentido para vida...gente que nos faz lembrar que nós também já procuramos, e se paramos não é exatamente porque tenhamos encontrado!!!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Outonos

  Foram anos de amizade, meses de aproximação, semanas para uma declaração e dias depois, encontraram-se os corpos, unidos por um desejo além de corpos. Como quando se sente cheiros, se veem, se tocam, se saboreiam, se escutam, tudo de uma vez só, atentos ao grande sentido que compõe o momento.

 Dia seguinte dia feliz. A cantar sozinho. A falar sozinha. Meses atropelados pelo tempo da pressa, da angústia, da distância, dos silêncios. Das esperas, dos gritos. Dos sorrisos. Da calmaria. Do silêncio.

 Mais meses. Novo outono. Mais frio. Mais sol. Mais laranja, menos nuvem. A angústia voltou acompanhada do silêncio, que escondia as dúvidas e os desejos.

 Passou um ano. Ela precisava de algo. Abraço. Resposta. Ele precisava de algo. Coragem. Pergunta. Algo assim. Fragilidades.

 A dor da certeza caiu em seu estômago como uma bala de cobre não mastigada. Melhor que a incerteza constante, chorou e abasteceu a cidade. Fez as malas e as largou, sorrindo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ruído

 Hoje ele foi embora. Não sei se finalmente ou se já era hora, foi em silencio enquanto eu sonhava. Acordei pouco depois, a minha chave ainda balançava na fechadura. Eu tive certeza. Sem bilhetes. Sem louça suja ou roupa íntima no varal. Não teve discussão na noite anterior, nem vinho. Teve festa dias antes e dançamos como jovens, até o amanhecer, no meio de muita gente diferente de nós. Estranhos cansados, só isso. É certo que havia mais vontade do que sinceridade, mesmo assim sinto algo. Não é pesar nem vazio, é silencio. Daqueles semelhantes aos da meditação: longos que se soltam do tempo, solitários mesmo em dupla. Silencio bom, por sê-lo, simplesmente.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Caracol

  

 Você veio me visitar. Até eu descobrir que ela também morava na minha cidade. Depois de meses de silêncio eu resolvi encarar o que eu não sabia que veria, o que eu sentiria, depois de tempos vazios quase imóveis quando duros e depois, vestido de passado distante, reencontrar você foi tão natural quanto no início. Abraço e todo aquele papo de reencontro, superficial e simpático, cordialidades. Então quando chegamos em casa, você observou as mudanças: paredes, fotografias, meu cabelo. Tomou o último gole na taça e finalmente disse o propósito daquilo tudo: um pedido de casamento. Pra ela.

  

 Eu estava de costas, finalizando a sopa. Ele não pôde ver meu sorriso. Ao mesmo tempo em que eu cortava a cebola, um filme sobre a minha vida, tipo aquela coisa de experiência de quase morte, passou num instante, com o trecho: começo, meio e fim de nós dois. Respirei tão aliviada que não me reconheci.

  

 A alegria me tomou conta, ele finalmente tinha decido algo, não era eu, mas era uma decisão. Acho que o meu amor foi tanto, que a paz me tomou pelos braços. E ele foi. Ao encontro dela. E eu fiquei para o encontro da vida.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Amantes

para JK




Quartos de hotéis
fora do tempo.
Pequenos aquários
Estamos nus.

Estrada vazia
horizonte de aurora.
Conversas, gargalhadas,
sonhos e piadas.

Tentativas pro futuro.
Outro tempo.
Fora do tempo,
o tempo brinca
de ser o que quiser.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Espelho

Encontrei com ela. Conversamos. Foi um encontro que estava marcado para o futuro e chegara antes. Detesto surpresas. Ainda mais dela, que sempre vem com alguma bomba disfarçada de chocolate. E conversamos. E choramos. E eu falei tudo, ou quase. E ela me ouviu. E falou muito, tanto que se perdeu no que dizia, ao parar para ver o urubu que circulava no céu claro. E continuou com seus sentimentos. Contraditórios, como sempre. E eu queria apenas ser feliz comigo mesma. No meu canto, que é só meu: o eu mesma em silêncio.

Mergulhamos. Densidade distraída, o fundo do mar é bem escuro. Dá vontade de ir mais e mais. A luz aparece às vezes, de relance, como quem espia um envelope grande. Ele assusta - tamanha beleza, tamanho mistério. Não é como andar descalço na grama e ser picado por infinitas formigas, é apenas ouvir a própria respiração e ter de confiar nela, em si mesma, senão, morre. Fui atrás da Nina, e voltamos à superfície. Eu sabia que eu tinha muito mais fôlego que ela. Não sei bem porque voltei, eu ficaria muito mais lá embaixo, me ouvindo bater o coração, com vida, com força. Apenas uma suportável dor nos ouvidos. Mas Nina estava cansada. Eu a acompanhei.

Deitamos ao sol. Disse que subiu porque achou que eu não aguentaria. Ela não me conhece. E sempre se intromete. No fundo, é uma egoísta, fazendo o bem para os outros, para ficar em paz consigo mesma.

E, naquele dia, percebi que eu era um pouco ela. E ela tinha medo dela, medo de mim. Por fim, contei-lhe o que sempre quis: “você fica muito mais bonita com a boca fechada”.