sábado, 22 de maio de 2010

O gelo bóia

Fazer da vida listas - como as de mercado ou viagem - exige criatividade e disciplina. Recortar manjericão. Copiar o CD pra ele. Não esquecer de pagar o condomínio. Telefonar para a Lu. Fazer a lista do mercado. Em meio a essa liquidez, o cubo de gelo bóia, solitário no copo.
São tempos dissonantes...Meus amores não vividos. As paixões cegas em tempo escasso: a não prioridade e o trânsito maldito. As amizades passadas. Roupas velhas e confortáveis. Comidas vencidas jogadas fora com pesar. Passado ressurgindo para limpar o canto da sala. Guarde o retrato com mais cuidado, não seja insensível!
Reviver a música com os olhos fechados ao chorar de alegria. Alívio comum. Acordar sorrindo. Leveza de Ser. Nuvens gordas. Sorrisos inéditos. Já reparou que nos momentos domésticos de limpeza, como lavar a louça ou tomar banho, é que podemos ter grandes insights em resposta a dúvidas mínimas? Aconteceu comigo outro dia e acabei por verbalizar mentalmente meus proto-sentimentos (embriões com fase interrompida) em relação a ele, e assim ficou estruturado:

“Caro filósofo,
A vontade é de continuar a conversa, não fosse a ordem de silêncio.
Em respeito às regras, me permito a escrita, conversa estática.
A liquidez perdeu sua mobilidade. Fluir nem sempre foi bom, principalmente quando desnecessário.
Na incerteza, permanece onde está para posteriormente olhar para os lados corajosamente. Abrir os olhos com vontade é diferente de quando lhe abrem - às pressas- a cortina do quarto de dormir”

Cômico, resolvi rir de mim mesma. Convido lhe a rir junto da capacidade humana em meio a um processo banal de lavar uma panela cheia de gordura do almoço de hoje. Amanhã vou almoçar fora com as meninas, aí a gente ri do outros.

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