quinta-feira, 27 de maio de 2010

ZeroQuatroUm

O conteúdo da caixa de correspondência no início de cada mês é sempre a mesmo e óbvia dupla: contas e propagandas. As vezes, no meio de algum aleatório mês, vem carta de amiga distante ou cartão postal daqueles que viajam nas férias e nos levam no peito, ou mais propagandas de estabelecimentos novos da região. Mais do mesmo: novos cafés, almoço em buffet por Kg, e coisas do tipo.
Hoje, fim do mês, veio a conta daquela outra operadora de telefonia, que usei no mês anterior. E que eu já nem lembrava. Quarenta e sete reais e trinta e dois centavos! Esse foi o preço que aqueles dois dígitos, os vulgares “xx” que você precisa discar antes do DDD seguido de número de telefone, me cobraram pela coragem que tive em resolver um terço da minha vida, ou melhor, a terça parte do pacotinho de pedras que carregamos sem lembrar quando foi que começamos com isso.
Naquela noite, em que fiz esse pequeno estrago nos minutos da conta telefônica, a leveza foi tamanha após o “Boa noite, tchau.”, que parecia aquele fôlego que a gente reforça em noite de ano novo ou antes de assoprar velinhas de aniversário pensando: “pronto um já foi, tô livre!” Que venha o que vier, seja o que vier, disse o mineiro, aquele. Era uma história passada que queria estar em voga: olha a contradição!
A prática do desapego é desafiadora, dá medo e depois te faz sorrir até para desconhecidos transeuntes nas calçadas de um centro urbano. Só sabe como é quem faz. É como quando você passa dias vendo que naquele canto “ali, ó,” aquela coisa (ou um objeto qualquer) “tá vendo?” “Tá sujo!”. Olha mais uns dias e pensa: “xi, já tá encardido!” Olha meses ou anos depois e pensa: “ai que preguiça!” E então conclui: “vou passar isso pra frente”. Mas olha bem e pensa: “mas sujo assim, é sacanagem com o próximo”. E então, começa a olhar e ameaçar: “a tua hora tá vindo” e chega um dia, que, você já cansado de olhar e saber que a hora já passou, e estar grisalho em saber que está sujo, que você pega a coisa e diz “vem aqui, agora eu vou limpar, até parecer que nem foi usado”. Esfrega, lixa, lava.
A duração, marcada em tempo real por 01:12:58H em uma noite fria e úmida, foi o tempo necessário para uma tarefa que aparentemente parecia tão chata ou penosa em fazer. Depois, você comemora sozinho,se orgulha da tarefa em silêncio e, com um banho quente, lembra que Belchior tem razão, naquela música velha roupa colorida.
Esse foi o tempo que eu precisei para liberar o excesso de peso, e lembremos que excesso é o desnecessário, daquela sacolinha miúda que cabe hoje no bolso de isqueiro da calça jeans.
Nunca paguei uma conta tão animada, mesmo sendo cara, fiz questão de pagar no caixa do banco, só pra sorrir pra mais uma pessoa desconhecida.

3 comentários:

  1. Sorrir pra desconhecidos é um ótimo sintoma por se livrar de pesos desnecessários... acho que estou precisando arrumar umas 'gavetas'...

    ResponderExcluir
  2. amei este! sinto algo muito próximo...qdo estou bem, sorrio aos outros. qdo naum estou, tb...é um exercício. deu vontade de arrumar gavetas! comecei pela da geladeira, depois de fazer uma bela janta!hehehehe

    ResponderExcluir
  3. É melhor que brincar com crianças no colo da mãe, aposto nisso!

    ResponderExcluir